
A Vida em Padrão de Orla Kiely
Se você visitou Londres no último mês ou dois, pode ter notado que a icônica fachada do Fashion and Textile Museum (FTM) passou por uma renovação. O redesenho é cortesia da estilista e designer têxtil nascida na Irlanda, Orla Kiely. O FTM foi projetado pelo renomado arquiteto mexicano Ricardo Legorreta Vilchis — foi a única encomenda europeia que ele completou. Sua aparência distinta exemplifica seu talento para misturar o brutalismo modernista com o estilo arquitetônico Pueblo. O edifício se destaca especialmente por sua vibrante paleta de cores rosa, amarelo, azul e laranja queimado. Na ocasião de sua retrospectiva de meio de carreira, Orla Kiely: A Life in Pattern, Kiely cobriu parte daquela famosa fachada com seu padrão mais conhecido: “Stem”, que se assemelha a uma selva de brotos de feijão esticados em direção ao céu e com folhas bulbosas em cores do arco-íris. “Stem” oferece um toque extra de vivacidade à estrutura. No entanto, é dentro do museu que reside a verdadeira centelha de energia. A exposição explora a ampla gama de trabalhos que Kiely realizou nos últimos 20 anos. A forma como os objetos são exibidos, porém, não se lê apenas como uma exposição de design. Em certos momentos, parece mais uma instalação de arte abstrata. A maneira como os padrões e objetos interagem com o espaço e a luz cria uma sensação estranha e, às vezes, irreverente. Essa sensação oferece um ponto de partida perfeito para uma questão maior: “Quais são as barreiras entre a arte contemporânea e o design, e será que chegou a hora de esquecer essas barreiras?”
As Razões Pelas Quais Fazemos o Que Fazemos
Ao debater se devemos chamar alguém de artista ou designer, um conceito que inevitavelmente surge é a intenção: por que essa pessoa faz o que faz? Segundo modos tradicionais de pensar, espera-se que artistas tenham razões mais elevadas do que designers para fazer as coisas. A ideia basicamente diz: “Designers criam produtos que têm um propósito, mas a arte não tem propósito, ou se tem, é um propósito muito elevado que só os iniciados e sofisticados podem entender.” Orla Kiely é um exemplo de por que essa suposição está errada. Considere, por exemplo, o trabalho de outra pessoa, cujo nome é bastante parecido com o dela: o artista abstrato Ellsworth Kelly. Ao longo de sua carreira, Kelly se inspirou em formas de plantas. Muitas de suas obras mais memoráveis são nada mais do que derivações simplificadas de folhas e pétalas de flores. Embora considerada uma designer, e não uma artista, Kiely também se inspira na natureza, referenciando as formas biomórficas de folhas, pétalas e caules. Ellsworth Kelly não se interessava por padrões — ele se interessava mais por formas e contornos individuais. Kiely, no entanto, frequentemente usa o padrão como uma ferramenta visual. Independentemente disso, as obras de Kelly e Kiely são capazes de afetar o humor e a atitude dos espectadores.

Orla Kiely - Arquivo de canecas 2007-2018. © Orla Kiely
Então, por que, mesmo que Kiely e Kelly sejam conhecidos por criar fenômenos visuais que parecem semelhantes e possuem o mesmo poder emotivo, eles são considerados fundamentalmente diferentes? Será porque designers criam trabalhos para o mercado de massa? Será porque os designs são vistos mais como decoração ou ornamento, ou como coisas úteis? A arte não pode também ser feita para o mercado de massa? A arte não pode funcionar como ornamento ou decoração? Até os artistas plásticos mais proeminentes fazem produtos de consumo — eles podem ser acessíveis apenas para colecionadores ricos ou instituições, não para as massas, mas ainda assim são mercadorias. O que esta exposição demonstra é que a intenção por trás de uma experiência visual não tem nada a ver com sua capacidade de afetar a percepção humana. Cor é cor, forma é forma, textura é textura e linha é linha — nosso cérebro pode perceber e reagir aos elementos estéticos independentemente dos métodos pelos quais esses elementos se originaram, ou das razões pelas quais foram feitos.

Orla Kiely - Campanha Outono/Inverno 2017. © Orla Kiely
Nosso Ambiente Contemporâneo em Evolução
Os curadores de Orla Kiely: A Life in Pattern chamam a exposição de “imperdível para todos que se interessam pela mudança da aparência do ambiente do século 21.” Há um pouco de exagero nessa afirmação, mas também há algo profundo nela. A aparência do nosso mundo está mudando, e de maneiras dramaticamente diferentes dependendo de onde vivemos, qual é nossa situação econômica e se nossa cultura está em guerra ou em paz. Estar cercado por beleza e ordem está se tornando mais um privilégio do que um direito. O papel dos designers e artistas nessa transformação está evoluindo. Kiely é uma designer cujo trabalho foi abraçado por celebridades, mas seu alcance também inclui peças extremamente acessíveis e se expande por uma infinidade de itens do cotidiano. Se ela e seus colegas puderem encontrar mais formas de atravessar divisões sociais e culturais, a beleza e a ordem podem se tornar mais onipresentes.

Orla Kiely - Tecido Primavera/Verão 2016. © Orla Kiely
Para muitos de nós, a “mudança da aparência do ambiente do século 21” não é o que preferiríamos que fosse. Uma coisa sutil que está ao nosso alcance mudar é a ideia de que, de alguma forma, a arte não pode fazer parte da vida cotidiana. Se uma pintura pode criar uma experiência emocional transformadora na mente de um espectador, por que a experiência visual de um conjunto de cortinas, um edredom ou uma caneca de café não poderia abrir portas perceptivas semelhantes? Pelo simples ato de considerar ornamento, decoração e design não como separados da arte, mas como parte integrante da arte, podemos estender a beleza e a ordem a qualquer pessoa, independentemente de sua origem ou nível de sofisticação. Isso pode não ser algo positivo para as escolas de arte, acadêmicos, críticos e instituições que definem seu valor com separações culturais artificiais, mas seria algo positivo para a cultura humana em geral. Esta exposição não é obrigatória para compreender essa ideia, mas é uma adição eloquente à conversa. Orla Kiely: A Life in Pattern está em exibição no Fashion and Textile Museum em Londres até 23 de setembro de 2018.
Imagem em destaque: Orla Kiely - Primavera/Verão 2017, Semana de Moda de Nova York. © Orla Kiely
Por Phillip Barcio






