
Sobre Abstração e Empatia, a Obra Fundamental de Wilhelm Worringer
Para quem se interessa em entender como a espiritualidade passou a ser associada à arte abstrata, “Abstração e Empatia: Ensaio sobre a Psicologia do Estilo” (1907), de Wilhelm Worringer, é uma leitura essencial. Está na mesma linha do livro “Sobre o Espiritual na Arte” (1911), de Wassily Kandinsky, frequentemente citado em escolas de arte como texto fundamental para estudantes que estudam o desenvolvimento da abstração. Mas, embora os dois livros tratem geralmente do tema da arte e espiritualidade, eles abordam o assunto de maneiras significativamente diferentes. Kandinsky expõe claramente em seu livro as ideias que desenvolveu sobre a relação entre música e espiritualidade, e transmite sua intenção de encontrar uma forma de expressar essa mesma relação por meio da arte visual abstrata. Worringer não escreve sobre a conexão entre arte visual e música, mas aborda como a abstração se relaciona com a espiritualidade em geral. E ele trata dos preconceitos que as pessoas tinham em relação à arte abstrata no início do século XX. A atitude predominante naquela época era que a arte abstrata merecia menos respeito do que a arte representacional. A maioria dos críticos, professores e curadores acreditava que apenas artistas que não tinham competência para copiar perfeitamente a natureza recorriam à abstração. Hoje sabemos que isso não é verdade. A maioria dos maiores nomes da abstração inicial — de Kandinsky a Malevich, passando por Picasso, Mondrian e Georgia O’Keefe — eram espetacularmente habilidosos na pintura naturalista. Eles se afastaram dela simplesmente porque buscavam formas diferentes e mais verdadeiras de se expressar. Com “Abstração e Empatia”, Worringer deu aos artistas abstratos a confiança para continuar suas buscas vanguardistas ao argumentar com sucesso que a abstração é igual em significado e valor à arte realista. Ele ainda provou que a abstração é uma expressão fundamental da vontade humana de se conectar com o mundo espiritual, estabelecendo-a como uma pedra angular da criatividade humana.
Empatia VS. Abstração
Quando um artista desenha uma imagem que imita objetos do mundo real, pode-se dizer que esse artista expressa empatia. Ele demonstra sua relação empática com o tema ao copiá-lo. Mas muito antes de aprendermos a desenhar imagens que se assemelham aos objetos reais ao nosso redor, primeiro aprendemos a rabiscar. Rabiscos são um impulso. Um rabisco não imita a realidade, mas expressa um sentimento; uma compulsão; um tipo de energia. Mesmo depois de aprendermos a copiar a realidade em nossos desenhos, ainda mantemos aquele impulso original de rabiscar. Às vezes até admiramos nossos rabiscos. Contemplamos suas qualidades. Passamos o dedo sobre a marca feita pela caneta; cheiramos a tinta; viramos a página e notamos a translucidez do papel, como a cor da tinta muda quando vista deste lado. Inúmeras outras sensações ocorrem, porque inerente à experiência do rabisco está a percepção de que fizemos algo. Acrescentamos algo ao nosso mundo que antes não existia. Criamos.
O prazer que sentimos ao criar é inegável. Ele é sentido quer desenhemos, cantemos, dancemos, construamos, esculpamos, costuremos, cozinhemos, lutemos, conversemos, escrevamos ou façamos qualquer outra atividade imaginativa. Em “Abstração e Empatia”, Worringer define o prazer criativo como essencial à experiência humana. Ele traça suas origens até as obras de arte mais antigas conhecidas criadas pelas mãos humanas. O mais importante é que ele observa que algumas dessas obras antigas imitam a realidade, mas a maioria não. A maioria são marcas, padrões e formas abstratas. Ele nota que, ao longo da história, isso sempre foi assim: arte representacional coexistindo lado a lado com a abstração. As Pirâmides dos antigos egípcios não são formas primitivas criadas por artesãos que não tinham talento para copiar a natureza. Sabemos disso porque as pinturas egípcias são cheias de realismo estético. As Pirâmides não eram realistas porque não eram uma tentativa de empatia. Eram uma tentativa de se conectar com o que é desconhecido. Eram uma tentativa de transcendência. Toda abstração, acredita Worringer, é uma expressão desse mesmo impulso, de reconciliar nossa existência mortal e temerosa com algo incognoscível: o espírito.
Renunciando à Vida Orgânica
O fato doloroso que os humanos parecem nunca querer enfrentar sobre a existência orgânica é que tudo morre. Sabemos que fazemos parte do mundo natural, e ainda assim somos compelidos a renunciar a ele porque ele não atende às nossas necessidades de resistência, segurança e controle. Em “Abstração e Empatia”, Worringer aponta que essa disputa entre nossa aceitação e nossa negação da nossa natureza orgânica é a razão pela qual, ao longo do tempo, empregamos simultaneamente tanto a empatia quanto a abstração em nossa arte. Ele diz que “a necessidade de empatia e a necessidade de abstração [são] os dois polos da experiência artística humana.” Quando fazemos arte que se assemelha ao que sabemos ser a vida objetiva, estamos projetando um apego físico ao universo. Por outro lado, quando criamos arte abstrata, estamos projetando “uma atitude psíquica em relação ao cosmos.”
A estrutura filosófica que Worringer construiu ao escrever “Abstração e Empatia” tem sido usada por mais de um século para ajudar a elevar o status público da arte abstrata. Worringer nos ajuda a entender que há uma necessidade humana essencial de expressar aquela parte de nós que acredita na existência do espírito. Ele nos dá uma linguagem para falar sobre nossa intuição de que há mistérios nesta vida e neste universo que não podem ser desvendados. Esses mistérios levam alguns artistas a tentar entender os significados ocultos que podem estar presentes em cada objeto, cada material e cada processo. “Abstração e Empatia” e suas filosofias podem não ajudar a explicar aos céticos o significado de qualquer obra abstrata em particular, mas podem ajudar a explicar a origem da vontade humana pela abstração, enquadrando-a como um método de representar o mundo objetivo de forma mais espiritual.
Imagem em destaque: Abstração e Empatia: Ensaio sobre a Psicologia do Estilo, de Wilhelm Worringer. Capa do livro.
Por Phillip Barcio






